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Luís Campos Ferreira: “saio com algum sentimento de dever cumprido”
No momento em que abandona o cargo de deputado, o social-democrata destacou a importância do Canal Parlamento.
"Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,

Tomei a decisão de renunciar ao meu mandato de deputado e, assim, deixar o Parlamento português. Faço-o de uma forma muito refletida, muito consciente e muito livre.

A par da responsabilidade, a liberdade é uma condição essencial do exercício do cargo de deputado, e isso inclui, necessariamente, a liberdade de lhe colocar um ponto final.

É o que faço agora.

Sei que o faço num momento delicado, para não dizer mesmo complicado.
Numa altura em que, dentro e fora do Parlamento, se discute muito a necessidade de mais e mais transparência no exercício de cargos públicos.

Há, decerto, muito a fazer neste domínio. Ninguém o pode negar. Até porque não existe essa coisa chamada “transparência a mais”. O contrário de transparência a mais é transparência a menos, e isso chama-se opacidade. Nestes últimos 44 anos, os Portugueses já aprenderam que opacidade não rima com democracia.

Mas não posso deixar de dizer que a transparência e o escrutínio que existem hoje, em finais de 2018, são incomparavelmente maiores e mais efetivos do que eram quando aqui entrei pela primeira vez, em 2002.

Mérito, sem dúvida, da nossa democracia e da nossa sociedade, que evoluíram muito nesse sentido ao longo destas quase duas décadas.
Mas mérito também dos próprios deputados e deputadas, que não se colocaram à margem ou acima dessa exigência de escrutínio, avançando eles próprios com novos instrumentos e novas práticas para levar cada vez mais longe esse imperativo democrático da transparência.

Não me vou alongar em exemplos.
Dou apenas um de que muito me orgulho ter contribuído para a sua implementação, juntamente com dois colegas aqui presentes, o senhor deputado António Filipe e o senhor deputado José Magalhães.
Falo do lançamento do Canal Parlamento, em 2004.

O Canal Parlamento foi desde o seu início e será sempre, creio eu, uma enorme porta aberta à sociedade portuguesa, algo de que a nossa democracia se pode e deve sinceramente orgulhar.

Uma porta aberta aos jornalistas – a quem devemos uma cobertura dos trabalhos parlamentares isenta, livre e informada – e uma porta aberta aos cidadãos – a quem devemos o dever constante de prestação de contas.

Se é verdade que temos telhados de vidro - e temos mesmo, basta olhar para esta monumental claraboia sobre as nossas cabeças - também temos paredes de vidro. Uma dessas paredes é justamente o Canal Parlamento.

Hoje, em grande parte graças ao Canal Parlamento, os portugueses sabem que o trabalho dos deputados não se limita a duas tardes e uma manhã de plenário. Que embora muito importante e mediática, essa é apenas uma pequena parte da nossa função.

Hoje, em grande parte graças ao Canal Parlamento, os portugueses podem assistir em direto ao trabalho que os deputados fazem nas diversas comissões. Fiscalizando o executivo, questionando ministros, secretários de Estado e órgãos da administração pública. Ouvindo personalidades, especialistas, instituições. Perguntando, inquirindo, apurando factos.

Hoje, em grande parte graças ao Canal Parlamento, os portugueses de Norte a Sul do País, os portugueses das Ilhas e os portugueses da Diáspora sabem o que os seus deputados estão a discutir e a debater a cada momento, conhecem os seus pontos de vista sobre os diferentes temas, confrontam os seus argumentos na feitura das leis.

Hoje, em grande parte graças ao Canal Parlamento, temos cidadãos mais informados, mais participativos e mais atentos sobre o que acontece dentro destas quatro paredes.

Mas o Canal Parlamento é muito mais do que o canal de televisão da Assembleia da República.

O Canal Parlamento é a prova viva de que, quando se trata de defender ideais, de defender a Instituição parlamentar, é possível aos partidos, a todos os partidos, unirem-se em torno de um objetivo maior. Combater pela liberdade e a democracia.

Só assim foi possível ultrapassar as divergências que naturalmente existiam entre nós relativamente a um projeto inovador, com este alcance e esta magnitude.

Só assim foi possível encontrar pontos de contacto, valorizar os denominadores comuns e chegar a um compromisso em torno de uma ideia para o Canal Parlamento. Sobre os seus princípios. A sua missão. A sua estrutura. A sua forma de funcionamento.

Só assim foi possível criar de raiz este poderoso instrumento de comunicação ao serviço do País, dos portugueses, da democracia e do direito à informação e à transparência.


Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,

Este é para mim, portanto, um tempo de despedida.
Não foi uma decisão fácil. Afinal, foram duas mãos bem cheias de anos ao serviço da causa pública, neste lugar central da nossa democracia, onde temos o grande privilégio e a imensa responsabilidade de podermos mudar para melhor a vida concreta das pessoas.

Saio com algum sentimento de dever cumprido. Mas saio, sobretudo, com a certeza de que nunca fazemos demais nem o suficiente pelos nossos concidadãos. E que somos sempre devedores da sua confiança, da sua gratidão.

Uma gratidão que estendo a todos os funcionários parlamentares que ao longo dos anos tive a oportunidade de conhecer e com quem tive a honra de conviver. Profissionais dedicados, competentes, disponíveis. A todos os funcionários de todos os serviços que diariamente dão o melhor de si à Assembleia da República e ao País, a minha palavra de profundo respeito e agradecimento.

Concluindo, saio com a convicção de que dei, pelo menos, duas alegrias a esta Casa. A primeira dessas alegrias foi quando aqui cheguei. A maior parte das senhoras e senhores deputados com quem partilhei esses momentos únicos já cá não estão e, por isso, não o podem confirmar.
Já a segunda alegria pode ser partilhada por alguns, e até por muitos, os que aqui estão hoje: é a alegria de me verem partir. Até porque quem procura agradar a todos, não agrada a ninguém. É a vida, é mesmo assim.

Aqui chegados, despeço-me não com uma graça – como alguns dos senhores Deputados provavelmente esperariam – mas com um poema.
Um poema desse vulto maior da literatura portuguesa, Miguel Torga.
O poema chama-se “Viagem”.

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.

É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.

E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Vou continuar a ver-vos no Canal Parlamento. Até já!
Bom Natal!"
19-12-2018 Partilhar Recomendar
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